Ayrton Senna era “rei”: no Brasil e no Japão

O tricampeão mundial de Fórmula 1, Ayrton Senna, mesmo passados mais de 20 anos de sua morte, continua um ídolo do esporte no Brasil e também no Japão.

É fácil entender por que Senna é tão idolatrado por aqui e, mesmo não estando fisicamente presente, parece pilotar cada vez melhor, parafraseando a maneira como os argentinos se referem a outro ícone do automobilismo, Juan Manuel Fangio.

Antes de começarmos essa incrível história, peça seu combinado do chef e prepare-se para as aventuras e disputas que virão nos próximos parágrafos.

Piloto incrivelmente habilidoso e arrojado, Ayrton Senna era sempre um dos favoritos ao topo do pódio, foi três vezes campeão mundial vencendo rivais do nível de Alain Prost e Nigel Mansell.

Por essa razão, Senna era chamado de “Brasil que dava certo”, em uma época em que o país parecia eternamente fadado a dar errado. Não só no esporte (o último título mundial no futebol fora no longínquo ano de 1970), como na economia e na política.

Mas por que razão Senna também era “rei” no Japão? O que um país que sempre foi uma potência cultural, econômica e esportiva, que nem mesmo guerras, bombas atômicas, terremotos e tsunamis conseguem abalar, viu no piloto brasileiro?

Senna x Japão: Identificação instantânea

Não há dúvida que pilotar o carro da Mclaren, com os motores Honda, em 1988, logo após o Japão voltar a ter o seu GP de Fórmula 1 ajudava bastante, mas havia mais do que isso.

Ayrton Senna tinha uma característica em sua personalidade com a qual o povo japonês imediatamente se identificou: a superação das adversidades.

Gênio controverso ou judoca das pistas?

Ayrton Senna era exigente ao extremo com tudo. Exigia ter os melhores pneus, motores e ajustes no carro. Também exigia ter os melhores contratos e, no auge da carreira, até o direito de vetar quem seria o outro piloto da equipe.

A vida não devia ser nada fácil para mecânicos, donos de equipe ou para os colegas de escuderia de Senna. Como não era para os adversários do brasileiro.

Essa busca pela perfeição talvez fosse o primeiro ponto de identificação dos japoneses com Senna. Em entrevista relembrado o piloto, o jornalista esportivo Massahiro Owari comparou o tricampeão mundial a um lutador de Judô, por esse ser um esporte em que o mais fraco pode vencer o mais forte.

Quem conhece esse esporte, tão diferente da F1, sabe que um judoca campeão não é formado somente por talento. Sua habilidade é aprimorada através de centenas de “uchikomis” – repetição de técnicas – praticados todos os dias. Senna tinha a mesma insistência em busca da perfeição.

Samurai

O que exigia dos que trabalhavam com ele não era menos do que Ayrton Senna exigia de si próprio. Mesmo não sendo fisicamente forte (pesava apenas 70 kg, com 1,76 m de altura), se preparava para fazer a melhor corrida que seu corpo permitisse. E se fosse necessário, ia muito além dos seus próprios limites. Sua determinação, sua força mental, para resistir até o fim, eram características típicas da cultura nipônica, que aumentaram ainda mais a identificação dos japoneses com ele.

Um exemplo foi o antológico Grande Prêmio do Brasil de 1991, quando Senna perdeu a terceira e quinta marchas e depois a quarta, fazendo um imenso esforço físico para manter o carro na pista e ainda vencer a prova.

O desgaste foi tanto que ao final da corrida, não conseguia se levantar, tendo de ser ajudado para sair do cockpit.

Obsessão pela vitória, rivalidades históricas e acidentes “ninja”.

Muitos pilotos se queixavam de Senna por sua pilotagem agressiva. Mas era parte de sua personalidade não aceitar uma derrota. Não importavam as consequências.

Um exemplo foram os Grandes Prêmios do Japão de 1989 e 1990.

Em 1989, Alain Prost bateu em Ayrton Senna e ambos foram parar na caixa de brita. Se Senna não vencesse aquela prova, estaria garantido o terceiro título mundial ao francês. Prost abandonou a corrida, mas Senna conseguiu que os fiscais de prova empurrassem seu carro até os boxes, para que trocassem o bico e ele voltasse à disputa. Não só voltou, como chegou em primeiro, se mantendo na briga pelo título.

Ganhou, mas não levou. A maneira que Ayrton Senna voltou aos boxes foi considerada ilegal pela FIA – Federação Internacional de Automobilismo, que desclassificou o brasileiro, garantindo o título daquele ano a Alain Prost.

A FIA era então presidida pelo também francês Jean Marie Balestre, o que criou fortes suspeitas de favorecimento a Prost. Senna não se conformou, comprando uma briga que quase custou sua carreira na F1. O autoritário dirigente francês não aliviava para os desafetos e o assunto até hoje é motivo de polêmica.

Revanche em Suzuka

Foi por uma ironia do destino que no GP do Japão do ano seguinte, no mesmo circuito de Suzuka, Ayrton Senna e Alain Prost se encontrassem em uma situação muito semelhante à do ano anterior. O brasileiro havia feito uma temporada brilhante e bastaria o francês não pontuar, que Senna seria o campeão daquele ano.

Senna era o primeiro do grid e Prost o segundo. Logo na largada, o francês ultrapassou Senna, que reagiu tentando a ultrapassagem na primeira curva. A manobra de Senna causou uma batida que tirou os dois da prova, garantindo ao brasileiro o bicampeonato mundial.

Senna admitiu que foi tudo proposital, o que gerou muitas críticas. Inclusive no Brasil. Já no Japão, havia a percepção de que ele fora sido muito prejudicado, enfrentando Prost na pista e Balestre nos bastidores.

Mas em vez de reclamar, se queixar por estar em um ambiente que não o favorecia e desistir, o brasileiro respondia com perseverança e vitórias. Isso aumentava ainda mais o seu prestígio com o público japonês.

Rivalidade e respeito até o fim.

Ayrton Senna e Alain Prost foram protagonistas de uma das maiores rivalidades da Fórmula 1. Não seria absurdo dizer que chegaram a ser inimigos. Mas a vida dá voltas…

Em 1993, Senna venceu o GP do Japão, que seria sua despedida dos seus inúmeros fãs naquele país. Prost chegou em segundo.

Na etapa seguinte, na Austrália, Senna venceu a última prova de sua carreira. Alain Prost, que havia conquistado por antecipação o seu quarto campeonato mundial, chegou novamente em segundo.

O brasileiro levantou o braço do francês, dando início a uma amizade que, infelizmente duraria pouco. Ayrton Senna morreria alguns meses depois, em um trágico acidente em Imola, na Itália. Alain Prost, já aposentado, veio para o funeral e fez parte da ”guarde de honra” de pilotos que carregou o caixão.

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